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Eu amava aquela calça jeans. Parecia que fizeram pensando em mim. Diante do espelho, ela enfatizava minha beleza, como se eu precisasse dela para ser mais bonita. E pelas fotos, talvez eu precisasse, mas não só dela, e sim do conjunto inteiro. 
Um dia ela parou de me servir, não lembro bem se consegui substituí-la ou se meu corpo (ou gosto) mudou. Sei que de repente, ela se tornou dispensável. Separamos-nos vagarosamente, ambas não gostamos de despedidas. Fingimos que nada estava acontecendo em nossa relação. Tvia, de fato, algo acontecia. Não somente nosso afastamento, mas nossa relação estava abalada.
Eu não sentia mais aquela atração em usá-la, muito menos admirava seu corte e sua costura, seu modelo me dava náuseas. Aquelas bocas de sino bregas, eca! E a cada lavagem, a calça parecia ter um novo tom de azul. Assim sendo, ela foi ficando ali, no fim da fila, a última da pilha.
E eu a esqueci. Nossa relação morreu ali. Eu consegui superar o fim antes mesmo de acabar. Nada que uma nova calça não pudesse resolver. Contudo, eu não contava em ter que tratar desse assunto novamente, o que passou morreu quem vive de passado é museu. E então minha mãe me coloca num impasse, eu precisava dar um rumo para a calça. - Poxa, porque ela não pode ficar ali? Para sempre? Guardadinha? - resmungava mentalmente. Mas a questão é: ou usa ou doa. Ah, isso me doeu.
Tá, eu sei que nossa relação acabou, mas aquele instinto animal de poder sobre o outro, me corroí. Estamos separadas, mas ela não precisa vestir outra mulher, e o que vivemos juntas? E todos os elogios que recebi enquanto ela cobria minhas coxas, panturrilhas e glúteos? Será que se eu voltar a usar resolverá alguma coisa? Não custa nada tentar.
Custa sim, na verdade custou muito. Custou meu amor. A calça não passa nem do joelho. Estou querendo enganar quem? Eu ou a calça? Ela foi bem clara comigo: não te quero mais. Devo aceitar, eu quis assim, eu provoquei tudo isso. Tudo é culpa minha. Quantas pizzas estão entulhadas nessas coxas grossas? Quem sabe, o tempo que ela passou guardada, fez com que encolhesse, ou foi o sabão em pó.
Ela passou tanto tempo guardada, que eu nem lembrava mais, de quão bonita era. Veja só, nos dias de hoje, suas bocas de sino são super “vintage”. Seu jeans desgastado, fino e  de coloração desbotada é pura moda. As novas calças são vendidas, com a coloração desbotada propositalmente.
Eu falei do zíper invisível? Sim, aquele horrível de fechar. Quantas mulheres procuram calças com esse zíper e não encontram... Tudo porque a personagem da novela das nove usa. E olha que o zíper é “invisível”, imagina o que aconteceria se ele fosse “visível”? Elas ameaçariam as mães das costureiras de grandes grifes?
E ela aqui, bem na minha gaveta. Sofrendo calada...
Chego agora, no momento mais doloroso da história, a decisão. Será que vou deixar outro corpo “sensualizar” com a MINHA calça por aí?
Pensando bem, acho que a melhor coisa que posso fazer é doar... – Tudo bem, tudo bem, eu posso compartilhar esse tesouro. Que a dona do próximo corpo que entrar nessa calça, seja muito feliz. Desejo felicidade, porque a beleza está garantida.
Aprendi que tudo que vai, volta. Você acredita que recebi uma doação (da minha melhor amiga) de uma calça maravilhosa, confortável, bonita e que cabe perfeitamente em mim? Parece que fizeram pensando em mim!















Pratique o desapego!

Eu morria. Cada gota de sangue e lágrima que saiam da minha mãe, me matavam aos poucos. Quando eu era criança, assistia escondida a tortura que ela sofria. Atualmente, assisto como quem assiste televisão, num dia de domingo. Isso não quer dizer que eu tenha parado de morrer ou perdido a sensibilidade, pelo contrário, eu já morri tanto, que praticamente virei um zumbi. Assisto sem dor, só quero saber de comer minha torrada com nutella, sentada de mau jeito no sofá velho, com os pés sujos para cima e meu fone de ouvido quase encostando nos tímpanos. Ouvindo aquela musica internacional, da qual não sei a tradução. Cantarolando a melodia, ritmada com os gritos da esposa fiel do meu padrasto, vulgo minha mãe.
Malditos pirralhos de hoje em dia, não sabem nem ver uma mulher apanhando, ficam chorando e gritando para o pai deles parar, sem saber que isso só o motiva a bater mais. Bêbado quer audiência, por isso sempre ignorei. Estou quase morta de tanto ignorar.
Quando aquele monstro fedendo a álcool tentava me assediar, eu lembrava-o que era aidética, e rosnava fingindo que ia morder-lo. Burro como uma porta, o tolo saia correndo de medo. Quem me dera tivesse mesmo doente e pudesse transmitir esse vírus com uma mordida. Morderia ele, bem na nádega direita, na parte mais pomposa, e tentaria arrancar um pedaço. Morderia minha mãe, bem na auréola do seio esquerdo, onde fica tatuado “Raimundo”. Morderia o nariz daquele pirralho, para não ficar xeretando minhas coisas. Não morderia a pirralha, ela é suportável, e também, quem iria cuidar do Mostarda? Ela é a única que tem a paciência de limpar as fezes (isso quando não come escondido) e dar banho no meu vira-lata amarelo. Por fim, eu morderia meu pulso, só para perder sangue rápido e morrer com agilidade. Afinal, todos vamos morrer de qualquer jeito.
Pena que tudo isso são apenas planos, e mais, não há como coloca-los em prática.
Meu quarto é meu mundo, ele está dividido por continentes e faz parte de um universo que é esta casa. Quem sabe a previsão Maia sobre o fim dos tempos, não estava se referindo ao meu mundo? Então, me dediquei a estudar.
No quarto dia de viagem, cheguei à conclusão que chegaria mais rápido se a pirralha e o Mostarda estivessem puxando uma carroça, comigo e com as bagagens em cima. Mas não posso reclamar, nenhum outro caminhoneiro quis dar carona para uma jovem e seus dois animais de estimação. E assim prosseguimos. Eu e o caminhoneiro firmamos um pacto, ele nos dava a carona, e eu dormiria com ele todas as noites da viagem, o que obviamente me arrependi, pois ele prontamente travou o velocímetro nos sessenta quilômetros por hora. Mas, na primeira noite, logo desfizemos o pacto. E a falsa AIDS me salvou novamente. Decidimos ser apenas amigos, e então o acordo girava em torno de uma carona até Brasília, por uma amizade crua durante a viagem. Com a proximidade do décimo segundo dia de viagem, notei algo estranho no meu amigo Sebastião, ele não dormia há dias, e vivia tomando remédios. Quando eu o questionei sobre qual doença ele sofria, Tião abriu um sorriso desdentado com algumas gargalhadas misturadas com tosses de fumante, e me respondia que não tinha nenhuma doença.
Até que, na manhã do décimo terceiro dia de estrada, o Tião estava estranho, aparentava um retardo mental repentino. Nem reclamava das lambidas do Mostarda em sua mão, nem do choro de fome da pirralha e o mais estranho: da minha música alta. Esses três acontecimentos chateavam muito Tião durante toda a viagem, mas nesta manhã, ele simplesmente ignorava. Até que uma mosca (das muitas que havia dentro do caminhão) pousou na íris dos olhos cansados do velho Sebastião, mas o caminhoneiro não teve reflexo nenhum, nem suas pálpebras fechavam para expulsar o inseto. Foi aí que puxei o freio de mão, coloquei a mochila na pirralha, abri a porta, a joguei para fora do caminhão, depois abracei o Mostarda e me joguei em seguida. Alguns metros à frente, o caminhão perde o controle, e entra na contramão, chocando-se numa colisão frontal com outro caminhão. Ali, era o fim da linha para o saudoso Sebastião.
A pirralha me deu um susto enorme, pois a encontrei inconsciente e ensangüentada. Mostarda agüentou firme e amorteceu minha queda, deixando apenas alguns dentes ali no chão. A polícia chegou e nos levou para um depoimento.
Eu sabia que precisava morrer, eu estou morrendo, porque fugi do acidente? Fiquei muito insatisfeita com minha atitude, afinal, que belo final seria para meu corpo, acabar esmagado por um gigante motor e todo perfurado por cacos de vidro. Não sentiria nem dor, e ainda esqueceriam do prejuízo que deixei na minha cidade. Era para eu ter salvado o Mostarda, com a pirralha para protegê-lo. Perdi a chance.
No caminho até ao hospital mais próximo, ouvi no rádio do policial sobre meus feitos históricos em Nova Providência, minha cidade natal. Descreviam-me como um monstro, e não segurei a risada, de imediato pensei “ah, isso porque vocês não tiveram oportunidade de conhecer Raimundo”. Se a pirralha sobreviver, poderia até me defender, quando souber o que fiz por mim, pelo Mostarda, por ela e pelo mundo!
O policial era genro do Sebastião, mundo pequeno não? Contei a ele sobre como estava satisfeito com o casamento da filha, e aumentei os fatos. Falei sobre Tião sugerir a adoção da pirralha pelo casal infértil. O policial instantaneamente acelerou o carro, como se tivesse com o pai na forca, ou a filha morrendo. A partir daquele momento, realmente estava perdendo uma filha.
Já dei um jeito na minha mãe, no Raimundo, no pirralho e na pirralha. Agora somos apenas eu e Mostarda no mundo.
Então resolvi morar na cadeia. Fazer amizades, ter novos horizontes, comer de graça, ter um teto e roupa limpa. Decidi contar toda a verdade para o policial. Inclusive, tomei a culpa da morte do velho Tião, para garantir que não ficaria em algum tipo de “liberdade assistida”, já que é tão difícil ser preso no Brasil. A família do Tião, exceto o genro, me odeia. Mas é melhor que me odeiem e tenham boas lembranças do velho suicida. O Mostarda foi para um centro de adoção de cães, em outras palavras, está preso assim como eu. A pirralha sobreviveu, está paralítica, mas recebe mais amor do que eu, Tião e Mostarda juntos. Minha mãe parou de sofrer, não apanha mais, não chora mais não sofre mais e como sempre sonhou, estará pela eternidade ao lado de Raimundo. Sabe? Foram enterrados juntos e nem a morte os separou, fiquei sabendo que morreram de mãos dadas. Não conseguiram encontrar o corpo do pirralho. Mas quem lembra dele?
Na prisão, ando morrendo menos do que já morri até aqui. Às vezes bate uma saudade das minhas torradas com nutella.


Um ano e um dia.
Clarisse recebeu um email,
do remetente menos esperado do mundo.
César, completamente sem jeito e sem palavras
pôs-se a falar.
Contou como estava sua vida, suas feridas,
seus feitos e arrependimentos.
Não ousou a se declarar,
muito menos citar qualquer sentimento ou lembrança.
Descrevia uma biografia incrivelmente depressiva.
Estava morando com a mãe doente e o padrasto bêbado,
desiludido com o emprego.
Engravidou Jordana, e em breve nascerá Pedro Lucas.
Antes que se cansasse de ler, César começou a agradecer.
Se referindo sempre com muito respeito, 
chamando-a de Clarisse Melo, 
relatava que aprendeu algo que nunca esquecerá.
A coragem de dezembro.
Então, começou a ousar,
contou uma história, na qual Clarisse quis esquecer
apesar de nunca ter conseguido, fingiu bem.
César, dissera em seu email, que ensinaria isso a seu filho.
Afirmou, que contaria todas as noites,
antes de dormir,
sobre a história de uma mulher corajosa,
que abdicou do seu grande amor,
para tentar ser feliz.
E que apesar de ser extremamente contraditório,
ela conseguiu.
Encontrou forças, num único mês do ano.
O último, porém mais poderoso,
um mês que reúne todos os sentimentos em poucos dias, semanas.
Dezembro quer dizer: tenta, ainda dá tempo.
Tenta ainda é dezembro!
Mas, César então, descobriu algo a mais,
algo que Clarisse, não pudera imaginar!
César descobriu a coragem em dezembro.
A coragem de se declarar,
a coragem de tentar,
a coragem de amar.
E então, César, conclui o email,
sem final.
Deixando Clarisse, confusa e intensamente chocada.
Parece que foi ontem, afinal,
Mas ela não tem coragem de responder,
não conseguiu entender.
Pensou bastante e concluiu,
"César está louco, não sabe o que diz."
Deixou isso pra lá.
Ou pelo menos, tentou.
Era necessário, involuntário, até porque,
hoje deveria ser um dos dias mais felizes de sua vida,
ela iria se formar.
Já estava com a maquiagem pronta, e a beca estendida.
Focou seus pensamentos, no discurso que faria mais tarde,
na frente de todos os seus amigos,
que inclusive ajudaram-na a se livrar de todos seus dias tristes.
Entretanto, César voltara a rodear seus pensamentos, 
sem que ela percebesse.
Aquele email, aquelas palavras, aquela história,
aqueles dois.
Hoje é dezembro!
É o mês que Clarisse consegue fazer as coisas mais difíceis do mundo,
é claro que ela vai conseguir discursar perfeitamente.
Nada pode atrapalhar. Nenhum fantasma do passado.
Um ano, um dia e uma hora.
Clarisse estava olhando fixamente para o nada,
olhos cheios d'água e fazendo contas...
Contava o tempo que fazia, desde sua liberdade,
contava o tempo que fazia que não via César.
Então, Clarisse escutou alguém lhe chamar,
uma voz conhecida, um timbre único, um coração palpitando sem parar...
Ela desligou-se do grande nada, que estava olhando fixamente,
e procurou a direção daquela voz.
Era o mestre de cerimônias de sua formatura,
pedindo educadamente, cheio de tensão, que Clarisse começasse a discursar...
Seus olhos começaram a correr dentre os convidados,
procurando alguma coisa ou alguém,
procurava olhos castanhos, cabelo liso preto, 
um homem branco, quase esbelto,
César.
Bem ali. Ela encontrou César, bem ali.
No meio do salão, bem vestido e muito emocionado.
Olhou para o canto esquerdo do salão, e encontrou outro César,
trajando a mesma roupa, que estava, na ultima vez que se viram.
E então, ela encontrou outro César, e mais outro, e outro e outro...
Clarisse viu um salão inteiro, ocupado por Césares de todos os tipos.
Sua visão ficava cada vez mais ofuscada
não conseguia ver mais nada a sua frente,
acabou desmaiando.
Acordou.
Assustada, e muito chorosa. 
Na dúvida se foi um sonho, ou pesadelo.
Sentindo coisas, que estava adormecida em seu peito, há meses...
Exatamente doze meses. Um ano e um dia.
Contudo, havia uma frase marcada em sua mente,
"A coragem de dezembro" não saia dos seus pensamentos.
Porque esse sonho? O que dezembro tem para mim?
Não poderia imaginar resposta alguma,
ficou tão confusa, que chegou a imaginar, se tudo o que acontecera no último dezembro,
também não passasse de um sonho.
Coragem, Clarisse, coragem!
Era isso que ela ouvia, 
do seu próprio coração. 
Ela resolveu ligar para César,
ela precisava saber, se tudo foi real.
Ela sabia da coragem de dezembro, afinal.
Ligou para o mesmo número, que tinha em sua agenda,
ele teve um ano para não mudar de número.
Era a chance do destino, de fazer algo por eles.
A sorte está com quem?
Não demorou muito, alguém atendeu.
Um silêncio mútuo pairava a ligação,
enquanto ela ouvia um choro de criança,
ele se concentrava em ouvir a respiração.
Criaram coragem, responderam juntos.
O "alô" que disseram, foi extremamente sincronizado,
não conseguiriam repetir, nem se tivessem ensaiado.
A sorte estava ali. 
Não havia nada melhor para descontrair.
César criou coragem, perguntou quem era,
como se não soubesse, mas temia que não fosse.
Clarisse gaguejou, não soube responder,
planejou desligar o telefone, voltar atrás.
Mas ele estava radiante com a ligação,
e começou a falar.
Tratava-a como se ainda fossem namorados,
como se morassem juntos,
como se ainda fosse dezembro.
Ela criou coragem, respirou fundo, e pediu para fazer uma pergunta,
prontamente, ele permitiu.
"Seu filho, se chama Pedro Lucas?"
Não era exatamente essa pergunta que ela ligou para fazer,
e muito menos, era, a que César esperava.
Sua felicidade era tamanha, que começou a rir.
Chamou-a pelo apelido carinhoso, que a deu quando namoravam,
"Não, Cacau! De onde você tirou isso?"
Ela não se continha. Deduziu que o filho dele tivera outro nome,
mas só conseguia ouvir o eco de sua voz pronunciando "cacau".
Ficou calada, pensando, tentando diminuir seus batimentos cardíacos, 
suspeitando que ele pudesse ouvir, de tão forte que eram.
César, estava tão feliz, que não queria deixar a conversa morrer,
ou a ligação acabar.
Começou a produzir perguntas aleatórias como:
o que você almoçou hoje? qual cor é o esmalte das suas unhas?
E quando ela conseguiu fôlego para responder, a ligação caiu.
Ele, deduziu que ela se afundou em arrependimento de ter ligado.
Ela, deduziu que ele não quis mais esperar por suas perguntas.
E a culpa, era tão somente da operadora telefônica.
Tudo estava acabado.
Mas, dezembro é doce. Dezembro é generoso,
Dezembro não irá abandonar Clarisse e César, jamais.
Clarisse lembrou, da coragem de dezembro,
que conheceu em seus sonhos.
César lembrou, das palavras de Clarisse, 
Decidiram se ligar.
Infelizmente na mesma hora.
Não conseguiram completar a ligação.
E tudo estava indo por água abaixo novamente,
até que,
chegaram duas mensagens, uma em cada celular,
informando para ele que Clarisse tinha efetuado uma chamada,
e para ela que César também.
Houve uma injeção de ânimo e esperança, 
no coração de cada um deles.
Clarisse resolveu ligar, novamente. 
Pois estava movida pela coragem de Dezembro.
César não. Ele não queria mais falar por telefone...
Ele precisava tê-la novamente,
ele sabia que dezembro quer dizer: tenta, ainda dá tempo.
Largou tudo que estava fazendo,
e saiu correndo atrás dela.
Ele sabia onde ela morava, e não queria perder nem um só segundo.
Na correria, não sentia o celular vibrar.
E as chamadas de Clarisse, caiam na caixa postal.
O desespero bateu forte, e ela derramou-se em decepção.
César estava correndo.
A Cacau de César, resolveu desistir,
afogou-se em profundo arrependimento.
César estava chegando.
Então, ela decidiu sair.
Precisava dos seus amigos,
de um consolo qualquer...
Enxugou a última lágrima, que prometera derramar por César,
e abriu a porta.
Deu-se de encontro com César,
ofegante, molhado em suor, descabelado e escancarando um sorriso, que daria a volta em sua cabeça.
Ele esticou seus braços, tal como seus lábios estavam, 
e convidou-a para um abraço apenas com os olhos.
Clarisse só precisava certificar-se,
de que não estava apenas sonhando.
Deu um pulo,
atracou-se na cintura dele, e concedeu-lhe um beijo.
Tudo, de olhos fechados.
E quando os abriu,
viu César chorar.
De alegria, por sinal.
Mas os dois sabem, que tudo isso, 
só foi possível,
porque hoje é dezembro.



- Moça, você pode me informar, que horas são?
"Nossa, quanta educação! Admito que estou mal acostumada. Acomodada com agressões de baixo calão e desrespeito contínuo. Entendo que me respeitar e ser educado, sejam critérios para seu trabalho, mas não é todo dia que sou tratada assim. Isso porque terminei meu romance ontem, pela noite. Só que, mesmo quando estávamos juntos... Estávamos.
Nossa, consegui conjugar o verbo no tempo mais doloroso de todos, confesso que esse acento agudo no primeiro a, parece muito com aquela faca que está atolada no meu peito. Tanto é que, preciso dar uma pequena pausa na hora de pronunciar a sílaba tônica, e é nesse curto espaço de tempo, que sinto aquela dor fina que parece gostosa, mas não é. É mais ou menos assim: Es-tá-porque você fez isso comigo? o que vou fazer agora? eu não mereço isso-va-mos.
Meus olhos estão ficando lubrificados... 
Oh! Não creio. Alguma disfunção hormonal, está fazendo meus olhos produzirem mais lubrificantes do que o necessário, e agora o excesso está deslizando pelo pterígio, e transformando-se em gotas. Parem, gotas malditas! Parem! Eu queria mesmo, é que as gotas penetrassem, nesses poros abertos da pele oleosa e rosada, das grandes bochechas que nasceram, no meu lindo rosto. 
Será que isso é o efeito colateral, das lembranças de ontem? Ou é a emoção de conseguir pronunciar o verbo estar, do latim namorar, casar ou ficar, na primeira pessoa do plural, no pretérito imperfeito? Perfeito, era assim que eu achava. Um amor perfeito. Tente abstrair-se daquele realismo chato de que 'nada é perfeito', ok?
Pudera até não ser, mas parecia muito. Não é assim tão complicado, afinal, aconteceu. Eu já nem preciso, sentir que perdi. Sou nova, estou na pista. Dele? O que vier é lucro. Menos as palavras, no vácuo das coisas que a gente disse, saiam faíscas, espadas, balas e shurikens em todas as direções. Uma lâmina acertou meu peito, e de passado não vou viver mais. 
Ufa, a goteira dos meus pterígios cessaram! Como se não bastasse, agora meus lábios estão ressecados, parece até que estão latejando, em perfeita sincronia com meus batimentos cada vez mais acelerados. Preciso esticá-los. 
Oh! Não... Ele pensa que estou seduzindo-o. E agora? Pensa rápido, pensa rápido... Vou olhar para o céu, procurar uma desculpa esfarrapada nas estrelas. Veja só, o céu não está estrelado. Mas o que é aquilo ali? Parece que estou num altar, ou melhor, um palco de teatro. Vocês são a platéia entediada e silenciosa, eu sou a protagonista, coadjuvante dos meus pensamentos, meu ex amor é o antagonista e ele é o mocinho galante. Esse foco de luz, animou sentimentos, vou espalhar meu amor por aí. 
Meu pescoço está dormente, ainda não encontrei uma desculpa esfarrapada, nas estrelas que não estão no céu. A luz da lua, ofuscou minha visão, e agora meus olhos são como duas luas. Tudo ficou pior! Ele tem tantos motivos para pensar que estou tentando seduzi-lo. Nem se eu tivesse a intenção...
Ele está apaixonado por mim! É isso, entendi. Ele me quer. Mas eu tenho... eu não tenho ninguém. Estou acostumada a ter alguém, a chamar alguém de meu. Ganhar carinhos sem comprar rifas ou apostar absurdos, atualizar um status de uma rede social qualquer, exalando amor. Compartilhar fotos melosas, que enjoa. Enjoar pessoas invejosas e mal amadas... Eu não posso ser uma mal amada, eu preciso de um amor. Eu não sei viver sem amor, eu não sou ninguém sem alguém! 
Como vou me apaixonar por alguém que não conheço? Preciso engolir borboletas! Para que elas possam voar dentro do meu estômago. Já derramei lágrimas de uma garota carente, esbocei um sorriso de lábios ressecados ardentes por beijos, e meus olhos estão refletindo a luz de uma lua redonda e brilhante, o que falta? 
Ai que dor! Não acredito, deu câimbra no meu pescoço! Essa dor supera todas as outras, até as que foram causadas por um cafajeste qualquer... Como vou olhar para ele, e fazer o olhar de sedução? Meu Deus! O que eu faço? 
Força, Júlia, força! Você consegue. Uau! Que estalo! Será que ele ouviu? Pera aí... Isso foi no meu pescoço? Eu acho que estou tonta, acho que vou cair..."
- Opa! - enuncia, com o único fôlego que restou ao rapaz, após aparar Júlia em seus braços.
- Acho que está na hora, em que você me beija. - sussurra, bem pertinho do seu ouvido.


Eu andava muito sozinho. Na clínica me deram até uma prescrição médica que dizia: 1 companhia 5x ao dia. Mas dizem por aí, que gente da minha espécie não nasceu para viver em grupos. É muito triste ouvir, que vou morrer sem ter uma família. É quase um castigo, não tive uma, e não vou construir nenhuma. Estou com depressão... Só pode ser! Não trabalho, não distraio... minha vida é comer. Isso quando me dão o que comer. Como não posso conseguir meu próprio sustento, eu dependo. E dependo muito. Caridade é o que não falta. Todo dia, alguém vem e me alimenta, e comer me faz bem, até esqueço que estou triste. Acho engraçado, e torço todo dia, para que eles me esqueçam. É sério. Quando eles esquecem de ajudar, esse pobre coitado aqui, me enchem de mordomia. Limpam minha casa, mudam os móveis de lugar, e capricham na comidinha. E põe "inha" nisso... Êta negócio pequeno. As vezes nem enche... E não sei qual criatura mal amada, disse que é só uma vez por dia. Ai, ai. Peixe tem fome toda hora. Ou vocês esquecem que até quando durmo, bato minhas barbatanas? E isso consome muita energia, desse pobre beta. Eu gosto mesmo, é quando a gigante-menor me dá comidinha. Ela não alcança minha porta, e despeja várias sem ver. Fico tão feliz, que como tudo de uma só vez. E não ligo em ter diarreia toda vez...
Mas aí, ela vai embora toda feliz. Eu fico com má indigestão, e arrotando bolhas fedorentas. Para completar, rodo toda casa, em busca de um amigo ou namorada. Mas não existe ninguém. Um dia eu descubro, quem inventou que beta não pode ter companhia. Pouco me importa, se meus antepassados brigavam até morrer. Já ouvi, gente dizer, que na sua espécie, tem gente que mata por prazer. Outras pra comer. E até por amor. Imagina só... Por amor, eu só amaria. Eu juro que nunca mataria. E tem mais! Minha oferta é grande. Pode até ser uma "peixinha feiazinha". Eu não ligo para escamas não... Ela só precisa ter olhos. E que esses olhos sejam só pra mim. Eu vou amá-la até o fim. Se quiser mandar duas, tudo bem. Quanto mais melhor, tenho amor pra mais de cem. Poxa! O médico já disse, preciso de uma companhia. Tudo bem, tudo bem. Se não tiver menina, pode mandar um brother aí. Adoraria trocar uma ideia com ele. Apostar corrida em volta do castelinho, ver quem passa mais rápido pela cortina de bolhas, contar histórias dos nossos antepassados que viviam no mar, quem arrota a bolha maior, quem come mais comidinhas em menos tempo, quem faz o cocô mais longo... Ou só, olhar pra ele e saber que não estou só. Nesse mundo. Nesse fim de mundo. Nesse aquário imundo.
Acho que cansei, conheço cada buraco que existe, sei de cor e salteado quantas pedrinhas têm aqui. Oh! Santo Sushi Dos Betas Isolados, me ajude a sair dessa. Não sei se aguento muito tempo, estou prestes a me afogar. Afogar de desgosto, de mágoas, de tristeza... Afogar na solidão. Oh! Meu Santo queri...
Olá! Quem é você? UAU, você é um peixão né cara? Hum... Entendi engraçadão, quer brincar de imagem&ação... Tudo bem! Só promete que ficar para sempre aqui? Eu juro que não vou errar...
E assim, mais um peixe consegue encontrar o único ser que ele poderá contar em todas as horas da sua vida. Bem, agora ele faz tudo que sempre quis com seu próprio reflexo-mudo-bonitão.





Sugestão da leitora Bia Vianna.


Ela acabou de saber que só resta apenas sete dias para viver. Ou sete até morrer. Como preferir. Ela não preferia nada, não aceitava. Relutava. Ele, ah coitado, não podia saber de nada. Ela não quis de forma alguma, que ele soubesse dessa notícia urgente. Mas é claro que ele sabia que ela estava doente. Que ela não estava bem. Que eles se distanciaram também. Para quem viveu seis longos anos juntos, seis dias sem ligações, mensagens ou satisfações, é algo muito estranho. Principalmente para uma meiga mulher obcecada e para um grande homem imaturo. Um casal perfeito. E de repente, ela fica doente. Ele precisa viajar. E ela acabou de se internar. O caso é sério, apenas sete dias. Mas ele só retorna com seis. E haja lágrimas outra vez. Pois só esse ano, já foi seu pai e sua avó. Imagina perder, a mulher e o bebê? Ah, esqueci, ela está grávida. E acabou de saber. Entre tantas desgraças, olha que graça, ela irá conhecer seu filho com apenas sete dias de gestação. Afinal, ambos vão morrer. O tempo é um sério acaso. Transforma vírgula em ponto parágrafo. Muitas idas e vindas desse amor, amadureceram uma telepatia inexplicável. Mesmo com quilômetros de distância, ele ouviu seu amor dizer: volta logo, preciso te ver. Apesar, de que, ela tenha dito algo a mais: volta logo, preciso te ver antes de morrer. Que dor que dá. Só de imaginar, o fim do casal. Consigo até premeditar: daqui alguns anos de luto, ele vai conhecer outra mulher, e vai dizer que a ama mais do que tudo. Mas com ela será diferente, seja qual for esse lugar que todos se encontram após a morte, ela estará lá. Mas o arrependimento de não ter visto seu amor antes de morrer irá persegui-la durante toda sua estrada! 
Respira! O padre chegou. Veio te dar a benção. Você tem poucas horas de vida. Tem certeza que não quer avisá-lo antes de partir? 
Dizia a mãe mais triste do planeta, por ver sua filha e seu neto partirem antes dela. Dizia a mãe mais sábia do planeta, por ver sua filha definhando de amor. E, mesmo que ela tenha permanecido com a ideia de não avisá-lo sobre sua morte, ele pressentiu, ele ouviu. Ele foi atrás dela. Pedir seu perdão, desculpar-se pela traição, jurar sua fidelidade, e como garantia: a eternidade. Ele não viu nada em casa, correu para a vizinha, que já sabia da notícia e falou com cuidado: sua amada está no leito, pronta para virar luz. No auge da sua euforia, entendeu: sua amada está no leito, pronta para dar a luz. E foi correndo comprar um brinquedo. Porque ele iria ser pai. E o brinquedo é o símbolo da felicidade da criança. E a única coisa que pudera interessar aquele pobre rapaz, era fazer alguém feliz. Mas enquanto escolhia ou o rosa ou o azul, ela ouvia doces palavras divinas. Frases confortantes, que sem querer encorajavam-na a se entregar para a luz. A não lutar pela vida, a acreditar no sagrado. E ele encontrou o hospital, trajando ainda o terno e a gravata infectados de corrupção, segurando uma baleia verde muito meiga, e extremamente confortável de pegar. Pediu informações para os funcionários. Ela respirava cada vez mais devagar. Piscava com a esperança de não ter que abrir novamente os olhos. Ele dava passos longos, e pesados. Tremiam o chão. Ela sentia seus batimentos acontecerem com dificuldade. Ele chorava de emoção. Ela de saudade. Ele estava cada vez mais perto do seu grande amor. E ela mais distante. Ele chegou no quarto indicado. Abriu a porta, e deparou-se com um belo quarto de hospital, todo arrumado, perfumado e vazio. 
Relaxa! O padre já foi. Ela partiu de vez. 







As duas nunca concordavam em nada, 
a semelhança física era inversamente proporcional às opiniões pessoais.
E para completar,
os amigos se dividiam, enquanto uns concordavam com uma,
outros concordavam com a outra. 
E nunca conseguiam se entender.
Por exemplo, hoje,
acordaram juntas, fizeram as mesmas coisas, juntas,
arrumar a cama, banho, trocar de roupa, tomar café da manhã, ir para a aula...
Arrumaram a cama sem dilemas! Tomaram banho na santa paz. 
Mas trocar de roupa é a guerra matinal das duas.
E quando eu digo que nunca concordavam em nada,
meu nunca é baseado em dezenove anos inteiros dedicados aos estudos.
Tenho total conhecimento de causa!
Para ser mais específica,
enquanto uma adorou o look com um short básico jeans, blusa básica preta e uma sapatilha com paetês,
a outra chorava por uma calça jeans preta colada, uma regata bege estampada e uma sandália plataforma.
Uma com rabo de cavalo,
a outra apelava pela boa e velha chapinha.
Uma de batom cor-de-boca, blush natural e rímel,
outra com batom vermelho, abusando no pó-base-corretivo e blush, sombra verde-dourado e rímel.
Uma com uma bolsa pequena, simples,
outra com uma enorme bolsa, cheia de coisas,
uma super atrasada,
e outra nem aí com que horas são,
uma conformada com as três novas espinhas,
a outra indignadíssima com a quantidade absurda de "tumores" que nasceram na sua testa.
As duas poderiam passar horas e horas discutindo e argumentando,
mas já se conhecem tão bem que,
o debate era feito apenas com caras e bocas,
certos olhares, que levariam anos de estudos, para poder ser explicado,
como uma entende a outra.
Bicos que jamais nem Freud, explicaria,
mas, uma e a outra, sabem exatamente o que quiseram dizer.
E se você já conseguiu imaginar até aqui o quão é difícil,
a convivência das duas,
tente me explicar, como conseguem, mesmo que ambas se confrontem sempre,
ficarem chorando por um tempo indeterminado,
olhando uma nos olhos da outra.
E mais,
como conseguem, sem motivo aparente, fazer caretas,
das mais diversas formas assustadoras possíveis,
para rirem juntas,
rindo, chorando, discordando.
As vezes penso que, ambas discordam de tudo,
por causa da mídia, dos outros...
Não por se odiarem, ou não se suportarem,
pelo contrário, se não ligassem tanto para a opinião alheia,
talvez, deixariam o amor brotar.
Sim, amor! Ou você não concorda comigo que elas se amam?
Mesmo que elas continuassem discordando, chorando e rindo juntas,
que passassem a discordar, chorar, rir e ASSUMIR esse INTENSO amor,
para que ao acordarem juntas, tomarem banho juntas, trocassem de roupas juntas,
também se amassem, em cada-intervalo-de-tempo.
O-tempo-todo. Para-todo-sempre.
E se engana, quem achou que estou falando de um amor, homoafetivo...
O amor, que citei, é muito maior e mais IMPORTANTE.
Se chama: AMOR PRÓPRIO.
Uma é você, a outra é o que os outros querem que você seja.


Essa festa foi memorável, tudo que acontecera lá, perpetuaria por dias, semanas, meses... Nove meses! "Grávida? - tenta a sorte de ter entendido errado - tem certeza?" Com uma reação facial da doce mistura de decepção com preocupação, começa a olhar para todos os lados, em busca de um penhasco sem fundo ou uma fogueira gigante, com o único desejo de que seja apenas um sonho.
Mas, essa má reação, não se compara ao arrependimento que se disseminava nas veias daquela “futura mamãe”. E, por mais que esse “futuro papai”, não quisesse acreditar no que aquele palitinho de plástico com cheiro de urina, apontava, “Precisamos comprar outro teste desses, existe a probabilidade de erro, não existe? Vamos lá agora? – esboçava um comportamento extremamente à base da esperança”, e mesmo que tivesse algum erro, “Esse é o sétimo teste que faço, Diogo. É isso mesmo, estou grávida, você será pai!”.Por mais que não tivesse empregado, uma única palavra ofensiva, em sua fala, Marisa acertou uma enorme lança de chumbo, no meio do coração dele.
“Marisa, você sabe que somos apenas namorados, não temos muito compromisso, eu não tenho condições de...” e antes que começasse a relembra-la do grande “pé-rapado” com quem estava namorando, Mari se entrega ao choro... Sem ar, sem força e sem namorado. “Diogo, some daqui. Desaparece! – expulsa o pai biológico do feto sem pai”
“Você não imagina como eu estou, Marisa, tenta entender, você conhece meus pais, eles vão me matar! – alega em autodefesa.” Mas cá pra nós, essa mistura de sentimentos, destrutivos, mudam os seres humanos, e o “fofinho do Diogo” se transforma, naturalmente, no “bundão do Diogo” e a “santinha da Marisa” encarna, rapidamente, o papel de “super mãe”. E tudo que viesse da boca do Diogo, que não tivesse relação com as seguintes palavras: vou, te, ajudar, nessa, bronca, que, nos, metemos, juntos... Marisa estava rejeitando. 
“Quem não imagina aqui é você, Diogo. Você é louco? Tenta me entender, vou ser bem clara: vou ter um filho seu, uma criança vai nascer...” E antes mesmo que pudesse filosofar o ciclo da vida, uma ideia insana invade a mente psicótica do Diogo, “É isso! Pronto! Já sei o que faremos, Mari meu amor... A criança não vai nascer... Se é que me entende.”
E por mais que tivesse entendido, Mari precisava ouvir e Diogo queria explicar, “Vamos abortar! – claro, curto e grosso” e o que a igreja de Mari sempre empurrou “guela-a-baixo”, parecia uma possibilidade, e todas as fotos de fetos deformados, ensanguentados e abandonados, que Diogo compartilhou em seu facebook, já começava a fazer parte de um, incontrolável, desejo. “Aborto? – Mari indaga, sem reação alguma.” 
Ambos, se sentaram no sofá, respiraram juntos, trocaram olhares e carinhos, enquanto Diogo tentava convence-la com um olhar de “é, ninguém vai saber”, e Mari, pensava mil coisas ao mesmo tempo, retribuindo o olhar com algo do tipo “será?”.
Fazendo uma análise rápida, Mari, tentou projetar como seria a vida daquela criança. Um pai vagabundo, que abandonou os estudos, é operador de caixa do mercadinho Preço Bom, funcionário do seu próprio pai, um velho hipertenso que gasta fortunas com remédios, e economiza tanto, que a velha só pode fazer compras se for no mercadinho deles, e uma mãe que foi criada pelo padastro, porque o pai morreu cedo, a mãe morreu logo depois do segundo casamento, faz faculdade de administração, para possivelmente trabalhar no mercadinho Preço Bom, trabalha durante a tarde como manicure e pedicure, e pela parte da noite gasta todo seu sono, cuidando do velho babão e paralítico que seu padastro se tornou. Sinceramente? “Acho que, realmente, essa é a melhor saída. – concorda com o ex-futuro-papai-bundão.”
Mari, apesar de não parecer, sempre foi muito esperta, já tinha até preparado seu discurso, para quando contasse para sua melhor amiga, a única pessoa que saberia de toda história: e você, faria o que?!
Diogo se responsabilizou, prontamente, em pesquisar (no google), os modos e opções que nosso país, politicamente correto, oferece. E, para a felicidade de ambos, tudo se tornava mais “prático”, pelo fato da decisão ter sido precipitada. Mari, bloqueou completamente, todo e qualquer esboço de afeição pelo “erro”, como chamava, que estava em seu jovem útero. Diogo, não precisou tanto, sua masculinidade e preocupação de como seus pais reagiriam, já cortou qualquer vínculo que viesse a sentir.“Olha que beleza, Mari meu amor, a gente nem vai gastar tanto! Encontrei uma receita, no Yahoo Answers, que dizem que é in-fa-lí-vel! – comemora pela primeira vez, dentre as últimas duas horas...” E com uma necessidade, irreprimível, Mari pratica o sarcasmo com gosto “A gente? Não existe mais ‘a gente’, desde o momento que eu te expulsei dessa casa, Diogo. Você que 'não vai gastar tanto', depois desse aborto, vou te abortar também da minha vida...” Sobressai, obviamente, com classe.
Pena que essa atitude, tão bem calculada, surtiu efeito colateral, e da mesma mente que sai a hipótese de um aborto, também saiu a opção de esconder quais são os riscos, possíveis e prováveis, para a mãe, na prática do aborto. E, depois do ataque aos sinceros sentimentos do Diogo, o contra-ataque veio. “Vou comprar os ingredientes, Mari, e vou prepará-lo em forma de chá, para você tomar, pode ser? – dá incio ao contra-ataque.”
E o status do relacionamento de Diogo e Marisa, passou de “namorando” para “duelo mortal”. Mari, foi curtir seus últimos momentos como mamãe, tomando um longo e poderoso banho revitalizante, enquanto Diogo, no seu papel de pai, comprava ervas e venenos, no lugar de fraldas.
Na noite, daquele mesmo dia, Diogo se prontificou a preparar aquele chá-da-morte. Como mencionei, era a vez de Diogo contra atacar, e como bom, psicopata que demonstra ser, muda as dosagens indicadas no site, com intenção de, literalmente “matar dois coelhos com uma cajadada só”. Inconsequente. Vagabundo, bundão e inconsequente. Apesar de metido a psicopata, Diogo nunca planejou ver a ex-namorada morta. Era apenas uma necessidade, humana, de revanche. Vingança pura. “Mari meu am... Mari! Seu chá está pronto! – convida as vítimas para um atípico chá-da-tarde.”
Depois de horas no banho, preparando-se mentalmente para o tão desejado aborto, Marisa senta-se à ponta da mesa, olha para aquele estranho líquido, que nem de longe assemelha-se à um chá, e começa a inalar aquele odor estranho, que permutava com a fumaça, que exalava.“Não tinha outra receita menos fedorenta, não? Ou algo mais sólido, um remédio talvez? Só tem essa porcaria aqui? – esboça um novo ataque de sarcasmo” Diogo, com suas péssimas intenções com o líquido mortal, não daria chance ao acaso, “Toma logo isso Marisa! Vamos acabar com isso de uma vez por todas. – encoraja as vítimas.”
“ - Adoro essa música, vamos dançar? – Marisa.

- Deixa eu só dar mais um tapinha aqui, bem rapidinho. – Diogo.

- Tem certeza? Olha como estou bonita, amor. – Marisa.

- Assim eu não resisto! – Diogo.

- Ebaaaa! Vem, quero dançar muito. - Marisa.

- As coisas funcionam assim: eu faço o que você quer e você faz o que eu quero. – Diogo.

- Como assim? – Marisa.

- Dançar é o que você quer? – Diogo.

- Lógico! – Marisa.


- Então, depois da dança, você vai fazer o que eu quero, certo? – Diogo.


- Tá, tanto faz, a música vai acabar, vem! – Marisa.


“Marisa? Marisa? Você está me ouvindo? Mari?” Aquela sala era tão ríspida. “O que aconteceu? – primeiras palavras de Marisa” Todos da sala davam glória, pelas poucas palavras que ela balbuciou. Seu sogro “pão-duro” com um buquê de rosas em mãos, a velha mal humorada, com um sorriso de orelha à orelha, e Diogo derramando lágrimas e com um olhar meio que “você falou!!!!”. Não tinha como, Marisa, entender algo naquele momento... Mas com tempo, calma e apoio de psicólogos, tudo foi se esclarecendo.
Marisa teve um AVC, e uma intoxicação generalizada, com sequelas irreversíveis... Mas, para a felicidade, ou infelicidade, de todos, o bebê conseguiu sobreviver, fato que nenhum médico conseguiu explicar, nem se quer tentou... 
O parto foi difícil, complicado e de risco, mas tudo ocorreu bem, Diogo sempre auxiliando e presente, foi o único que conseguiu pegar o bebê no colo, pois Mari perdeu alguns movimentos. Batizaram de Valentina. A linda menina, que adora gatinhos e tem os olhos da mãe com a boca do pai.
E mesmo que evitem conversar sobre o assunto, hoje, o casal que prefere ser chamado de “a gente”, convive com um remorso profundo. Onde nenhum dos dois é capaz de acusar um ao outro. E muito menos, Valentina, é capaz de entender porque sua "mamãe" não anda, ou porque ela vive a dizer que: “meu maior arrependimento, foi não te querer. Valentina!” 




Isso mesmo, ela tinha um amor bandido.
Um amor mentiroso, um amor doloroso,
ela tinha um amor.
Ela sabia de toda a verdade
mas insistia em querer fazer durar,
ela é humana, é carnívora,
ela não sabia em quem confiar.
Esse amor durou anos,
começou antes mesmo de começar,
no fundo ela sempre soube,
Eu serei de César, e César será meu.
Dito e feito, feito e fim.
Ela realmente foi de César,
realmente, literalmente, completamente, de corpo e mente...
A diferença é que César foi dela,
de Renata, de Bianca, de Jordana e Maria Lúcia.
O relacionamento durou bastante,
muitos dias e muitas noites,
muitas horas de conversa e amor...
Rendeu comentários perante toda sociedade,
perante o bairro, a rua, a casa, a família, as amizades...
Apesar de ser um amor bandido,
foi a melhor coisa que aconteceu na vida deles.
Clarisse começou a entender, como funcionava a vida,
entendeu que não adiantava querer mudar,
nem ela, nem César,
afinal, ambos não estavam dispostos a entender,
que para amar, você tem que aceitar a pessoa como ela é,
que para viver, você tem que aceitar as pessoas como elas são,
é um exercício para vida, até porque a cada esquina
uma nova pessoa, outros defeitos, muitas manias...
Clarisse não era tão perfeita assim,
sofreu porque quis,
ela sabia que tinha uma personalidade gélida,
e a maneira no qual tratava César, após cada briga,
somou bastante para esse final.
Ela demonstrava seu amor, para suas amigas, nas redes sociais,
mais no 'carne e osso' era muito racional.
Ele por sua vez,
atraía muitas brigas, por poucos motivos,
era incerto demais!
Atacava Clarisse, com palavras rudes e de baixo calão,
por ciúmes inventados, sem motivos e sem razão.
Claro que, esquecia, de toda moral que dava
para as outras meninas, sem falar das escapadas!
Ambos enfrentavam problemas com o tempo,
César funcionário atarefado, e Clarisse acadêmica de direito.
Outros problemas cercavam César de tal maneira....
Descaso, ausência, orgulho, então nem se fala.
Só que o destino contava com algo que nem César, nem Clarisse esperavam,
a experiência.
E a imensidão de carinho e todo o respeito que Clarisse doava para César,
ele não encontrara em nenhuma outra...
E apesar de César, ter vivido casos paralelos, ele sempre voltava pra casa,
e dispensava toda sua atenção para Clarisse,
coisa nenhuma amiga conseguia fazer...
E dezembro chegou...
Clarisse estava esgotada, não estava mais conseguindo 'fazer durar...'
Começaram a dormir em mundos separados, na mesma cama,
a responder uma pergunta com outra,
a discordarem de tudo, até mesmo quando concordam...
Mesmo que Clarisse se esforçasse para conseguir 'aguentar a barra',
César não ajudava, não percebia, parecia até que não sentia,
que o pior se aproximava,
e que talvez, uma hora qualquer, tudo passaria a ser em vão.
Já era dezembro!
Num relapso qualquer, César acordou!
Começou a sentir-se só no mundo,
percebeu que ninguém mais se importava,
se ele voltava pra casa ou não,
se ele sentia frio ou calor,
percebeu que a cada segundo,
tudo ficava mais monótono,
como se Clarisse fosse desaparecendo aos poucos,
Não que dezembro tenha algo de diferente dos outros meses,
mas é o último mês do ano,
e por isso, somente por isso, traz a responsabilidade de fazer o que não fez o ano inteiro,
o que prometeu o ano inteiro,
colocar onde falta, tirar onde excede,
Dezembro quer dizer: tenta, ainda tem tempo.
Tenta, ainda é Dezembro!
César sabia de tudo isso. Clarisse também!
Então, Clarisse foi tentar ser feliz.
Saiu de casa e não falou nada.
Optou por evitar a fadiga,
deixou César vazio, desamparado, desesperado,
Ela deixou César!
Clarisse não chorou! Aguentou forte, pensou bem, hoje é dezembro.
César, encharcou a cama de lágrimas. Apertou forte, o coração, e lembrou: hoje é dezembro.
Antes mesmo que Clarisse chegasse à porta,
César impediu.
Ficou de frente para ela,
de braços para cima e pernas esticadas,
bloqueando toda e qualquer passagem pela porta,
ficou alguns segundos olhando fixamente para Clarisse,
muito triste por não vê-la chorar,
na verdade, ele nunca a viu chorar.
Prendeu toda a angústia que estava sentindo,
e se ajoelhou no chão,
implorou perdão.
E ainda disse mais: "Prova de amor, é provar que ama, é pedir desculpa na hora certa, é saber esperar a raiva passar, é reconhecer que estar errado, prova de amor é amar..."
Entre soluços, até chegou a balbuciar "casa comigo?"
Ele transbordava arrependimento,
e realmente, parecia amar.
Ficou ali jogado no chão,
Ficou ali, ajoelhado pedindo perdão,
esperando alguma reação,
um retorno, uma mão,
uma ajuda para se levantar, um 'tudo bem, vamos voltar...'
E então, Clarisse se mexeu,
respirou fundo, fechou os olhos e se rendeu,
se rendeu para sua felicidade...
Uma que fosse de verdade.
Estendeu a mão para César, e enxugou suas lágrimas,
o abraçou forte, e ficou na ponta dos pés...
Chegou bem perto ao seu ouvido,
e então decidiu,
disse que iria abdicar o amor,
em nome da sua própria felicidade,
agradeceu César por fazê-la quem ela é,
uma mulher forte, sincera, corajosa e que se ama acima de tudo.
Perdoou César por fazê-la quem ela é.
"Espero que você me entenda,
eu quero ser feliz, acima de tudo..."
Ainda é dezembro, não perca seu tempo,
pode ser tarde demais.






















{Participação especial: Thay Vaz, Amanda Afonso, Dayra Pantoja, Stefania Medeiros, Rodrigo Carvalho, Bosco Pereira, Hélio Almeida, Juliana Loureiro, Jairo Maciel, Juliana Rodrigues, Felippe Figueiredo e Roberta Lima}


Já é a terceira noite consecutiva que a insônia me visita, e tudo se deve aos meus malditos vizinhos.
Esta casa, herdei do meu falecido avô, fora construída a partir de seu próprio suor, localizada em um terreno remoto de toda sociedade, em torno de uma linda paisagem, de arvores secas sem folhas nem frutos, de galhos pontudos e escabrosos, que ao anoitecer exalam aquele aroma, que te faz querer prende-lo dentro de suas narinas, mas quando começa a asfixiar-se o solta ligeiro, enfim suspirando.
Esse aroma o qual falei é uma mistura boa de todas as flores, que estão murchas, sobre os túmulos do cemitério ao lado.
Tal casa possui uma dimensão tão exagerada, que decidi, hospedar algum inquilino nos altos da casa.  Solidariedade, companhia e dinheiro num mesmo contrato, ora.
Coloquei no anuncio do jornal, e na mesma noite, chegaram os primeiros interessados: uma mulher e um menino. Ela me contou em trinta segundos sua história. Bom, contei trinta depois que acordei.
O menino me cheirava confusão, prontamente afirmei que não gostava de nenhuma espécie de barulho, nem meus vizinhos.
Ela falou que o olho roxo do garoto não era de briga no colégio, era algumas lições de casa, e começou a rir descontroladamente.
Então fechamos o contrato e a mulher instalou-se nos altos da minha casa com seu filho.
Eu e meus túmulos vizinhos, deveríamos fazer uma festa de boas vindas. Mas eles não se manifestaram até então. Até então!
Ela era linda, deslumbrante! Maquiava com preto e vermelho e se vestia com azul fosco, em tecidos apertados e longos. Altamente excitante. O moleque, despeitado, vivia de bermudas rasgadas, camisetas sujas e sandálias arrebentadas. Formavam um belo par. Combinavam com esse lugar.
Como já diz o clichê, no começo tudo vai muito bem, tudo é muito bom... Mas, e sempre tem um 'mas', logo os defeitos surgem e as pessoas se revelam...
Já é a terceira noite consecutiva que a insônia me visita, e tudo se deve aos meus malditos vizinhos.
O Sr. e a Srª Fox, não se acostumaram com os meus novos inquilinos... Não mesmo! A Mulher adorava ouvir discos de músicas clássicas no último volume, e ordenava seu filho a dançar Ballet todas as noites antes de dormir. Suspeito que o garoto tenha quebrado suas sandálias ao fazê-las de sapatilhas. E como se não bastasse, o hobbie do garoto, nada mais era do que escutar suas músicas de METAL, balançando a cabeça e os braços como se estivesse drogado.
Para os tradicionalismo do casal Fox, aquilo era demais! Não a dança, nem o metal, e sim a falta de cortesia de não convidá-los a participarem da festa! Era como, comer banana na frente de um macaco, sem oferecer.
Assim como os macacos fariam, o casal Fox também o fez. Foram lá, em busca de um convite.
Ora, ora, também querem ver o moleque dançar Ballet.
Bateram à minha porta exatamente as três e quinze da madrugada, meu horário comercial, então os recebi com muita alegria. Permiti a subida do casal até os altos. Bateram educadamente em sua porta...
A Mulher que trajava um biquíni pequeníssimo, de coloração vermelha, e fumava um cigarro grande, estava emocionada com a musica em questão, deixando a maquiagem muito bem borrada com as quedas incessantes de lágrimas escuras. Então, ao deparar-se com o casal Fox, apenas abriu mais a porta, e voltou à sua poltrona molhada. Deu uns tapas na costa do menino e, mandou-o voltar a dançar, apenas com um olhar.
O casal, muito animado, adentrou de imediato e encostou-se atrás da poltrona encharcada. Ficou admirando o garoto e sua dança totalmente desajeitada.
Com o êxtase do momento, o casal esquecera-se de fechar a porta. Ecoando o som da vitrola por toda minha casa, inclusive meu escritório. Onde, naquele exato momento eu estava atendendo um cliente.
Era um jovem rapaz, que tinha apenas vinte anos completos. Sua mãe o deixou em minha casa, chorando horrores, parecia até que o tinha perdido. Coitada.
Conversamos muitos, eu o ajudei como pude. E então comecei o ritual.
Mas sinceramente, aquela música de suspense não deixava eu me concentrar para terminar o serviço que tinha começado. Resolvi subir e pedir para abaixarem o volume. Pois bem, a casa ainda era minha!
Meu cliente, curioso suficientemente que pediu para me acompanhar, meu coração doce e mole não poderia rejeitar o pedido de um recém chegado. Aceitei, vamos!
Subimos as escadas, e meu vestido curto, pulava de um lado para outro, atraindo a atenção do jovem rapaz. Coitado, mal sabe das coisas.
Nesse momento, meu coração sussurrou em minha mente: 'ah como queria que fosse a Mulher, no lugar dele.' Coração maldito.
Contudo, chegamos aos altos da minha casa, é valido lembrar, bati na porta aberta, como se fossem me ouvir.
Apenas o moleque que não agüentava mais repetir o Cabriole, passo predileto de sua mãe. Ao me ver, parou de dançar no mesmo momento. De imediato sua mãe, retirou o disco. Levantou-se e veio até mim.  Perguntou se havia algum problema.
Eu estava tão apaixonada que não sabia o que responder, aquela mulher divina. Aquela Mulher!
O casal Fox, decidiu que a festa acabara ali, despediu-se da Mulher, do garoto, de mim, e ao topar-se com o jovem rapaz, ficaram paralisados. Não se moviam, e seus olhos ficavam vermelhos a cada respiração. O mesmo acontecia com o Jovem, só que ao invés de ficar com os olhos vermelhos, o Rapaz tremia-se da cabeça aos pés.
A Mulher perguntou ao casal se eles estavam bem. E antes que pudessem responder, voltou a deitar-se em sua poltrona ensangüentada. Colocou o disco novamente, aumentou tudo que podia, e pediu para o menino ir dormir.
O casal, lotado do espírito de vingança, juntamente com a empolgação da música ambiente, começou a atacar o Jovem Rapaz.
Eu, senti, que aquele momento era ideal para declarar-me para minha amada.
Enquanto o casal arrancava a pele, vísceras, olhos e dedos, do rapaz que acabara de chegar, riam, e dançavam o Cabriole com alguns membros do rapaz nos braços. Durante a diversão, iam desaparecendo cada vez mais. Até que sumiram.
Puderam descansar finalmente, depois de se vingarem do seu cruel assassino.
Ainda bem!
A Mulher animada com minha declaração, mandou o garoto que já se preparava para dormir, ir recolher os restos daquele espírito ali, despedaçado. E ir deixá-lo no jardim.
Ficamos só nós duas. E então, maravilhosamente, a Mulher levanta-se, me joga em sua poltrona quente e aconchegante, e começa a dançar o Cabriole para mim.
Deixando-me cada vez mais apaixonada,
Cada vez mais encantada,
Por aqueles vizinhos malditos.
Maldita paixão!




Em um campo qualquer,
onde não tinha energia se quer...
Nascia três vaquinhas.
A preta, a amarela, e outra cheia de pintinhas.
A pintada era cega, a amarela surda e a preta bandida.
As irmãs vacas se amavam muito, mas um dia foram vendidas.
Cada uma para um fazendeiro diferente, um rico, um pobre e outro favelado.
A cega teve sorte, toda mordomia do mundo, aprendeu braile e seu leite virava ouro blindado!
Enquanto a surda, coitada, passava fome, era tão magra que o ladrão achou que era uma galinha.
E o terceiro fazendeiro, mora numa nova casinha.
Ah, acabei esquecendo. Esse fazendeiro é pai do tal ladrão.
Isso mesmo, o que roubou a vaca surda, e levou pro Alemão*.
Pelo menos agora a galinha, opa, vaquinha tem o que comer...
Elas se deliciam com as ervas que o fazendeiro planta pra vender.
Voltando pra vaca pintadinha, deixe-me avisar:
ela acabou morrendo, de tanto ordenhar!
Seu dono ficou tão triste, que mandou fazer um velório.
Com direito a caixão, flores e o Padre Ozório.
Apesar de tudo suas irmãs nem sabiam.
Da tv só queriam saber do bbb,
do rádio só da jovem pan,
da internet a mini fazenda (porque lembravam de sua família),
do celular os jogos,
do tráfico, opa... do trabalho, objetividade!
Porém, no dia do enterro... Uma louca chuva atacou a cidade.
Enchentes, mortes e desespero
era só o começo, prepondero.
O morro desabou, as vacas ficaram atoladas, hum**.
A correnteza forte levou as duas vaquinhas para o enterro.
enfim, todas morreram.
Conclusão?
A natureza é mais forte do que voce.
...

*complexo do alemão RJ
**prato gastronomico
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